“Na primeira noite, eu já fui espancada. Uma das presas colocou a caneta no meu ouvido e ia me bater com chinelo, mas uma outra não deixou. Então, ela quebrou a caneta no meu ouvido. Mas a lesão que tive na audição foi por causa das pancadas que levei na cabeça. Dali, fui para UTI. Tive traumatismo craniano, a mandíbula e clavícula quebradas.” - É assim que Daniele Toledo do Prado, 25 anos, se lembra da primeira noite em que foi presa após ser acusada de matar a filha com uma overdose de cocaína.
Em outubro de 2006, Daniele levou sua filha, Victória, ao Hospital Municipal Infantil de Taubaté, que diagnosticou Síndrome de Ausência na criança, caracterizada por forte sonolência, pulsação quase zero e pressão baixa. Após a emissão de laudos falsos, a mãe foi levada presa sob acusação de misturar cocaína com leite em pó e dar à criança. Daniele passou 37 dias na cadeia, onde sofreu inúmeras agressões por parte das demais detentas, perdendo parte da visão e audição do lado direito. No entanto, após perícia mais elaborada do Instituto de Criminalística de São Paulo, descobriu-se que, na verdade, o pó branco misturado ao leite da menina era um psicotrópico chamado Fenobarbital - devidamente receitado por um médico quatro meses antes do incidente. O laudo emitido após a morte da criança foi inconclusivo. Daniele acredita em negligência médica, mas diz não ter a intenção de pedir uma nova avaliação.
O caso acima ilustra um dos muitos episódios nos quais a mídia se antecipa julgando um indivíduo sem provas conclusivas. “Os jornalistas tem ‘óculos’ especiais a partir dos quais vêem certas coisas e não outras; e vêem de certa maneira as coisas que vêem. Eles operam uma seleção e uma construção do que é selecionado”. A partir dessa colocação, Pierre Bourdieu afirma que o jornalista é uma vítima das condições pré-estabelecidas pela mercantilização das produções. Tomando o caso de Daniele como base, é possível notar a falta de acesso do jornalista a outras fontes que não os próprios policiais que a condenaram e aos médicos legistas que emitiram laudos contraditórios. Outro fator contribuinte para a divulgação da notícia equivocada foi a imposição do ritmo acelerado o qual atrapalhou no processo de filtro da mídia, de modo que o laudo correto não fosse emitido a tempo. Esse aspecto temporal, convertido na perseguição ao furo, é a questão maior na análise de Bourdieu sobre as condições de produção às quais estão submetidos os jornalistas.
Ainda segundo Bourdieu, “a televisão que se pretende um instrumento de registro torna-se um instrumento de criação de realidade. Caminha-se cada vez mais rumo a universos em que o mundo social é descrito-prescrito pela televisão. A televisão se torna o árbitro do acesso à existência social e política.” Esse simulacro criado pela mídia introduz pautas na esfera pública contribuindo para a modulação de opiniões. Essa opinião pública, portanto, adquire as características dos meios de comunicação: a busca constante pelo novo, pela agilidade, pelo furo - tornando-se afoita pelo ineditismo.
A mídia, constante e inconscientemente, pode ter um efeito hipnotizante. Ela é guiada pela lógica comercial que a legitima como ditadora de pontos de vista. O sistema que se constitui de forma injusta acaba por, muitas vezes, condenar inocentes e utilizar-se da sua habilidade de interpor-se no curso dos acontecimentos. No entanto, a população também compactua com a visão midiática de modo inconsciente, o que respalda sua programação.
Parabéns, meninas! O texto está muito bom! Logo no começo, ficamos presos com a triste narrativa. Gosto muito do tema e do exemplo bem ilustrativo escolhido por vocês: resume e evidencia a questão da grande mídia construtura e não admiradora e crítica da realidade. Acho apenas que faltou aprofundar mais a questão do público que "respalda a sua progração", colocando explicações de embasamento teórico sobre o tema, inclusive as exceções - como modelos de resistência à Grande Mídia, afinal nem todos são fiéis a ela.
ResponderExcluirMas, está ótimo! Parabéns mais uma vez ;)
Raquel Arriola - Jornalismo Manhã
Laís Batalha - Grupo em Pauta
ResponderExcluirPodemos tentar imaginar as consequências que uma única verdade expressa pela grande mídia pode trazer à vida dos demais, mas não acredito sermos capazes de realmente compreender a intensidade de tal. Já não somos providos de experiências e sensibilidade o suficiente.
No trabalho jornalístico, apesar de dever se pautar sempre pela objetividade dos fatos, fica implícito a existência de um "eu" sujeito por trás de cada enunciação. Dessa forma, cada profissional precisa esquivar-se ao máximo de movimentações passionais do calor da matéria.
Infelizmente, encontramo-nos em uma sociedade alienada de si e do mundo, onde a única realidade possível é aquela exposta pelos veículos de comunicação e onde a experiência reduziu-se a nada, dando espaço para generalização e mesmices.
Nessas configurações social, político e econômicas, a grande mídia funciona apenas como um anestésico para a população, analisando os déficits que a atual lógica de mercado causa e moldando-os para torná-los consumíveis.
Gostei muito de texto, meninas. Muito bem escrito e argumentado. A leitura, apesar de se tratar de um tema delicado e por vezes exaustivo, foi facilitada pela maneira como foi abordado.
Parabéns!
Laís Batalha - RA00065-413
Jornalismo Matutino - 2o semestre